sexta-feira, 11 de julho de 2008

MESTRE VELHINHO António Velhinho (n. 1936)

No meu tempo, quando era criança, todos queriam ser oleiros. Era um ofício, não podíamos escolher. Hoje os rapazes têm muitas facilidades. Tenho um filho que não quis ficar na olaria. Eles não querem nem estão vocacionados para aprender o ofício. Comecei aos 11 anos. Sou filho de um sapateiro que posteriormente se dedicou a vender loiça, estou cá há 55 anos. A diversidade é tão grande, as matérias são diferentes, o equipamento... Todos os dias estou a aprender e a ser enganado. Eu faço a recolha do barro no campo. Primeiro retiro a parte da superfície – a cabeçada. Faço um barreiro com cerca de 30 a 50 cm de profundidade. O barro é colocado num tino, adiciona-se água e é mexido com um falheiro. Obtém-se uma pasta com determinada consistência que é passada para dentro de um tanque. Este tanque, para não colar o barro ao fundo, leva uma cobertura de cinza e fica em repouso. No Verão, são cerca de 6 dias enquanto que no Inverno pode ir até aos 20 dias. Quando o barro está consistente é recolhido e guardado para se fabricar no Inverno. Temos grande carência de “rodistas” em São Pedro. Sou o único a fazer alguidares para a matança do porco. O trabalho do forno é muito difícil. A maioria dos oleiros não utiliza os fornos a lenha. Mais cedo ou mais tarde ninguém faz um pote, uma bilha, um alguidar... Isto é muito duro, nunca tive férias na vida. Hoje qualquer pessoa pode vidrar ou cozer loiça. São os oleiros do futuro. Oleiro é o que faz todo o processo – desde a recolha do barro até ao acabamento final. Fotografia: Paulo Nuno Silva Entrevista feita ao oleiro de São Pedro do Corval, em 2002.

1 comentário:

Ricardo Teles disse...

Meu querido mestre velhinho, umas férias passei pela sua oficina e disse-lhe que qualquer um fazia esse trabalho, lembro-me de ter barro dos pés à cabeça e aquilo não havia meio de sair direito, espero um dia poder voltar, tudo de bom Mestre, Ricardo Teles